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Tudo muda

  1. Yi Jing Orienta
  2. Yi Jing: Uma ferramenta para o autoconhecimento
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Fundamentação teórica

CONTEÚDO DA FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

História do Yi Jing

Por que funciona o Yi Jing?

Tudo muda

Muda, tudo muda.

Muda a energia e muda a matéria.
Mudam as galáxias, mudam as estrelas e mudam os planetas.
Mudam as rochas, mudam os oceanos, mudam as espécies.
Mudam os homens e mudam os deuses.
Mudam os costumes, mudam as leis.
Mudam os discursos e mudam as verdades.

Ou, como disse Camões em um de seus “Sonetos”:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto
que já coberto foi de neve fria
e em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz, de mor espanto:
que não se muda já como soía.

Ficamos assim com o fato da universalidade da mudança: até Jeová, antes tão comunicativo, deixou de falar-nos. Não podemos ignorar que algumas vozes se levantaram contra esse predomínio do fixo e do eterno: já Heráclito no-lo tinha alertado, mas ele perdeu o jogo contra Parmênides. Será que chegou a hora de reabilitá-lo, acusando os juízes de tendenciosos e de olhar para outro lado na hora da falta?

Constatamos então que todos os processos nascem, crescem, amadurecem, interagem, decaem e desaparecem. Noutras palavras, nossos bens são processos, nós somos processos, mas também o que amamos, o que pensamos e, pior ainda, aquilo no que acreditamos são processos, e todos eles estão sendo, o que significa que em algum momento não eram e noutro momento não serão. Essa mutabilidade é claramente uma das maiores fontes da angústia humana. Uma das grandes diferenças entre o pensamento chinês e o pensamento predominante no Ocidente é que o sábio chinês sabe que ele nada mais é do que um desses processos interagindo no mundo e, em lugar de ‘lutar para que aconteça o que deseja’, deve ‘lutar para desejar o que lhe acontece’. Esta atitude, que só é passiva na superfície, exige grande atividade interior para uma aceitação verdadeira das circunstâncias mutáveis. Em certa forma é apontada por Freud no seu artigo “Sobre a transitoriedade” (Obras Completas, vol.XIV, pág.317; Imago, Rio de Janeiro, 1969):

“Sabemos que duas noções psíquicas diversas podem surgir do reconhecimento que tudo, mesmo o que é belo e perfeito, se deteriora. Uma delas leva ao aflito fastio do mundo [...]; a outra, à insurreição contra a enunciada fatalidade. Podemos pensar ser impossível que todas essas maravilhas da natureza e da arte, de nosso universo de sentimentos e do mundo exterior realmente tenham de se desfazer em nada. Seria insensato e ultrajante demais acreditar nisso. Elas têm de subsistir de alguma forma, alheias a todas às influências destrutivas”.

“Essa exigência de eternidade é um desejo humano tão evidente que se costuma pleitear valor de realidade para esse anseio. Aquilo que nos aflige, porém, pode até ser mais real. Não posso contestar a impermanência generalizada para tudo o que existe nem encontrar exceção para o belo e o perfeito. Mas contestei o [...] pessimista, quando ele dizia que a transitoriedade do belo traz consigo a desvalorização da própria beleza. Acontece justamente o contrário, há uma valorização! A importância de tudo o que se transforma e por fim se esvai está associada justamente a sua escassez no tempo. É a restrição da possibilidade de fruição que eleva a preciosidade de algo. [...] declarei ser incompreensível que a ideia da transitoriedade do belo pudesse turvar o prazer despertado pela beleza. [...] Se existe uma flor que desabrocha apenas por uma noite, ela não nos parece por isso menos esplêndida. Assim, tampouco pude compreender como a graça e a perfeição da obra de arte e do trabalho intelectual poderiam perder seu valor devido à limitação temporal. Pode ser que venha um tempo em que as pinturas e as esculturas que hoje admiramos estejam arruinadas, ou que o ser humano, nascido depois de nós, não compreenda mais a obra de nossos poetas e intelectuais; ou mesmo é possível que chegue uma época geológica em que tudo o que vive sobre a Terra desapareça. Se o valor de todas essas coisas belas e perfeitas é definido apenas pelo seu significado para nossa vida sentimental, então não precisa sobreviver a nós, independendo, portanto, de sua duração temporal absoluta.”

Existe em nós uma espécie de compulsão para que os processos que preferimos sejam eternos ou, pelo menos, muito duradouros, e pretendemos manipulá-los para que se adaptem a esses desejos nossos. Mas, agindo assim, nos condenamos à frustração, já que, como diz o cap. XXIX do Dao De Jing (Tao Te Ching):

Querer conquistar o mundo manipulando-o, eu vejo não ser possível porque o mundo é sobre-humano e não pode ser manipulado;
manipulá-lo é arruiná-lo, conquistá-lo é perdê-lo. [Trad. do autor. ]

Porque os fenômenos
ora precedem, ora seguem,
ora amainam, ora enfurecem,
ora prosperam, ora declinam,
ora afluem, ora refluem.
Por isso o homem santo afasta o demasiado, o desmesurado, o desqualificado. [Trad. Sproviero.]

Este mundo, formado por uma miríade de processos diversos interagindo entre si, coloca-se muito além da capacidade de ação do homem, um simples processo a mais dentro da totalidade. Cada um desses processos se desenvolve conforme seus princípios e características imanentes, mas fica condicionado pela sua interação com todos os outros processos que constituem suas circunstâncias. O resultado é um constante vaivém, um fluir e refluir, que faz extremamente difícil estabelecer regras ou se aventurar a prognosticar desfechos. Assim, uma intervenção, carregada de intenção, visando um resultado, acaba sendo muito arriscada e com muitas probabilidades de fracassar, exceto quando efetuada no estágio de semente (vide capítulo “Imagens e sementes” mais embaixo), onde a própria interação entre os processos é fraca. É por isso que o sábio parece não agir, já que utiliza o menor esforço possível, mas não por isso permanece inativo.

Então, como agir perante as mudanças? Quando falta a referência externa, quando as mudanças se nos impõem, o caminho é nos orientarmos para nós mesmos, procurar no nosso interior os referenciais que possam guiar essa nossa conduta, poupando e administrando melhor nossas energias para poder navegar no meio dessas turbulências.

No capítulo XIII do Zhuangzi encontramos o seguinte diálogo sobre o correto agir:

“Yáo perguntou: Então, o que devo fazer? Shùn respondeu: Agir como o Céu e manifestar tranquilidade, brilhar como o sol e a lua e andar como as quatro estações, parecendo seguir a sequência do dia e da noite, o andar das nuvens e a queda da chuva”.

Noutras palavras, devemos nos deixar levar pelos ritmos da Natureza que agem em cada momento das nossas vidas: não tentar brilhar sempre, aceitando que existem momentos de eclipse; obedecer ao fato de que há hora para tudo (nosso “tempo para rir e tempo para chorar, tempo para semear e tempo para colher, [...]”) 1; movimentar-se sem ruído como as nuvens, mas às vezes soltar raios e trovões como elas; alimentar como a chuva, ainda que provoque esporádicos alagamentos; e, sobretudo: manter a tranquilidade como o Céu, atitude que os epicuristas gregos já tinham chamado de ataraxia 2.

Para isso, devemos separar o que é da gente do que não é. Aquilo que está no nosso dao, no nosso caminho verdadeiro, daquilo que não o está. Separar o que está ou não no nosso quinhão (Jullien, 2005, págs.11-24) (vide conceito de 命 mìng na Segunda Parte: Glossário), ou seja, não gastar energias à toa em coisas que não nos pertencem (como fazer para evitar cair em, ou diferenciar-se de, o egoísmo?). Conseguir discriminar entre: o que não é nosso; o que é dispensável; o que é neutro; o que é inevitável; o que é nosso.

Em geral, conseguimos identificar as torneiras que nos alimentam; difícil é perceber os ralos por onde nossa energia se esvai. Isso acontece porque os ralos são mais difíceis de modificar: prazeres, rotinas, expectativas, preconceitos, prejulgamentos, pré..., pré..., etc.

Com esse mesmo objetivo, o Yi Jing se nos apresenta como uma ferramenta, uma bússola, para nos guiar no meio da aparente confusão e conseguir transitar adequadamente por nosso caminho. Só que, qual é esse caminho?

[Próxima página]

NOTAS

  1. Não é o melhor para os homens que aconteça tudo o que desejam.” Heráclito.
  2. Não existe estupidez maior do que querer mostrar-se sábio na hora errada, assim como nada é mais ridículo e imprudente do que a prudência inoportuna.” Erasmo: Elogio da Loucura.
    Reflita o seguinte, quando se sentir no auge da ira: a nossa vida é um curto momento, e logo estaremos todos estendidos debaixo da terra.” Marco Aurélio: Meditações.