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Yi Jing: Uma ferramenta para o autoconhecimento

  1. Yi Jing Orienta
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Yi Jing (I Ching)

易 經

O Livro Das Mudanças

Uma bússula chinesa milenar para nos orientar
na confusão dos eventos... e dos sentimentos.

TRADUÇÃO E INTERPRETAÇÃO

JORGE VULIBRUN

Florianópolis, SC, Maio 2013

Agradecimentos

Ao meu grande companheiro Tranquillo Castelli Jr.
pelo seu apoio e compreensão ao longo dos anos

À minha fiel amiga Elisabete Araujo Leonetti
pelo seu zelo e dedicação com os que contribuiu
a desbravar os árduos caminhos do Yi Jing

À minha mãe, in memoriam,
que teria gostado muito ler este livro

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Quatro esclarecimentos se fazem necessários antes de iniciar este trabalho:

INTRODUÇÃO

A China é o nosso ‘Outro’ lacaniano, que demarca os limites entre aquilo que somos e aquilo que não somos, delimitando e desenhando os contornos de um sujeito, neste caso o próprio pensamento ocidental, e questionando suas características. As bases filosóficas, religiosas, linguísticas, sociais, enfim toda a cultura chinesa, não tiveram nem uma origem comum conosco (como a Índia indo-europeia) nem os contatos históricos frequentes que tenham permitido uma influência e fecundidade recíproca (como o Oriente Médio semita). A China apareceu para nós nos séculos XVI ou XVII já inteira, madura, formada, porém enfraquecida pelos seus problemas internos. Agora, que está recuperando a força e vitalidade que sempre a caracterizaram, está assumindo o papel de um espelho no qual a cultura ocidental está se refletindo, oferecendo um ponto de vista diferente que nos ajuda a perguntar-nos: “por que fazemos o que fazemos da forma em que o fazemos?

Obviamente, o fenômeno complementar acontece na China: nós somos seu espelho, só que ela, com seu pragmatismo habitual, já se está utilizando dele, assumindo-se como sociedade industrial e de consumo, única forma, neste começo do século XXI, de trazer prosperidade a seus habitantes. Este jogo de espelhos está sendo muito afetado pelos atuais avanços tecnológicos que facilitam tanto o rápido fluxo de informações quanto os contatos pessoais, provocando uma rápida inseminação mútua que diminui a distância entre essas culturas, com o resultado de sermos cada vez menos estranhos uns aos outros.

O que vemos quando estudamos a China? Apesar de tratar-se de uma civilização complexa, formada por uma diversidade de etnias e línguas, que gerou em si dois pensamentos filosóficos principais, o taoísmo e o confucionismo (por vezes conflitantes e por vezes complementares), e que integrou e transformou fortemente um terceiro ponto de vista, desta vez estrangeiro, o budismo, toda essa sua cultura está montada sobre o alicerce do livro “Clássico das Mudanças da Dinastia Zhou”, o 周 易Zhou Yi (ou 易 經Yi Jing, nome que abarca tanto ao Zhou Yi como alguns comentários que foram se incorporando a ele ao longo do tempo) 1. De aí o interesse que esse livro milenar merece.

Isso posto, surge uma pergunta: por que será que os chineses concederam tanto valor a um livro que admite um uso oracular e o mantiveram na base de toda sua cultura? Para nós, oráculo é sinônimo de crendice; será, então, que devemos rir dos chineses que, por três mil anos consecutivos, atribuíram uma excelência incontestável ao Yi Jing?

O que é o Yi Jing? É um livro, mas um livro muito peculiar. Ele não foi revelado nem teve um autor porque foi construído ao longo do tempo por inúmeras gerações de pensadores e, ainda assim, manteve-se profunda e continuamente reverenciado. Não conta uma história, não é uma exposição, não apresenta uma teoria, não explicita uma ética, e seu objetivo explícito é guiar-nos pelas incertezas que devemos percorrer ao longo de nossas vidas. É um livro formado por aproximadamente 1100 textos curtos divididos em 64 capítulos, sendo os sentidos desses textos derivados tanto do próprio significado das palavras que os formam quanto da inter-relação entre eles, ou seja, da sua posição na estrutura do livro como um todo. O que caracteriza os textos do Yi Jing é a sua linguagem profundamente simbólica: eles não dizem, apontam; não afirmam, sugerem; não explicam, incitam. Uns parecem referir-se a histórias conhecidas pelos seus leitores originais, outros parecem ditados populares, outros são claramente sugeridos pela sua posição nos hexagramas, mas todos estão unidos entre si por um sentido comum a eles. Os textos são curtos, mas suas exegeses, já desde a dinastia Han (200 A.C.-200 D.C.), ocuparam bibliotecas inteiras 2. É impossível ignorar ou desconsiderar a profunda influência que o Yi Jing teve na cultura chinesa, tanto na sua filosofia quanto na sua ética, política, medicina, etc.

palavra yi

O que significa Yi Jing? A palavra 易 significa “mudança, transformação; fácil” e 經 jïng significa, entre outras coisas, “tratado clássico”, nome respeitoso que os chineses atribuíram a poucos livros. O caráter representa etimologicamente, conforme a figura da esquerda, a imagem de um camaleão. Esse nome é muito adequado para um livro multifacetado, que se apresenta de forma diversa para cada um que o procura. Ele une, por um lado, as mudanças que se manifestam fácil e fluidamente no mundo que nos rodeia, e, por outro, a alteração de cores que representa o dinamismo e a mutabilidade próprias dessas transformações.

Devemos destacar que no Ocidente temos como ideal a verdade, o que nos leva à pergunta fundamental: ‘POR QUE?’. Tratamos assim de enunciar com clareza afirmações que visam entender as causas que levaram a uma determinada situação, ou seja: ‘Isto é assim porque antes foi assado’. Na China, por outro lado, o ideal é a harmonia e a pergunta fundamental é: ‘COMO?’. A China trata de descrever com fidelidade a forma em que as coisas se apresentam e se inter-relacionam entre si visando um equilíbrio entre elas 3. Por isso, para guiar-nos, o Yi Jing utiliza analogias, metáforas e imagens do tipo: ‘Isto é assim como aquilo é assado’.

É possível observar que, ao longo do tempo, tem havido aqui e ali pequenas correções nos textos do Yi Jing, como para adaptá-los às mudanças dos leitores e às nuanças interpretativas das diferentes épocas (além dos frequentes erros de cópia), mas nunca houve câmbios radicais neles. Assim, apesar de termos um texto canônico, chamado de “Texto Recebido”, ele se apresenta em várias versões um pouco diferentes entre si. Portanto, não existe um texto do Yi Jing que possa ser considerado fixo e ao qual devamos a fidelidade merecida por um “original” a ser “traduzido”. O processo que deve ser assumido é o da “leitura”, sua “interpretação” e a “transmissão” do sentido encontrado. Para esta tradução temos utilizado, preferentemente, as versões de Wang Bi (226-249 D.C.) e do manuscrito de Mawangdui (encontrado nessa cidade numa tumba do ano 178 A.C.) 4.

Ao longo da história chinesa existiram duas correntes, muitas vezes superpostas, com relação a como posicionar-se perante o Yi Jing:

Podemos imaginar o Yi Jing como um mapa que se adapta às próprias mudanças dos locais que mapeia. Ele é, fundamentalmente, um guia que nos orienta no mundo sempre mutável no qual estamos inseridos. Ele é chamado de oráculo, mas não o é. O Yi Jing não é um livro que desvenda um destino prefixado, ele não diz “o que” vai ocorrer, ele é um livro que descreve as mudanças, mostrando “como” as coisas tendem a evoluir. Assim, não define situações que serão alcançadas, mas aponta trajetórias para alvos que poderão, eventualmente, ser atingidos em função de nossas ações concretas. Em resumo, mostra o “caminho das pedras”. Como veremos mais adiante, ele é um modelo simbólico de como as coisas se organizam e interagem entre si, com a pretensão de descrever a evolução de todos os fenômenos, destacando a sua impermanência e constante interação, daí sua utilidade como ferramenta. Resta a nós segui-lo com cuidado e sabedoria, como quem sai de casa levando um guarda-chuva porque o prognóstico do tempo indica chuvas no final do dia.

Mas, se o passado é só memória, o futuro só imaginação e nossa única realidade é o presente, o aqui e agora que estamos vivendo, como e por que um livro pode ter a pretensão de descrever a evolução de todos os fenômenos? Porque ele, partindo do princípio de que todos os fenômenos são processos contínuos e interligados, que não são em-si, mas entre-si, esclarece as sementes desses processos implícitas nesse nosso presente e as potenciais consequências das nossas ações ou inações atuais. Ele modela os possíveis resultados e nos recomenda alterar esse nosso presente agindo ou não, de forma a maximizar as sequelas favoráveis e minimizar as indesejáveis. Poderíamos dizer, utilizando um conceito budista, que ele desvenda o karma, as consequências decorrentes das nossas ações. Seus textos estão carregados de imagens onde o que importa não é o que dizem, mas o que sugerem ao leitor. É o leitor que, ao interpretá-los por analogia, dispensa a necessidade de uma resposta específica e literal sobre sua consulta.

Um esclarecimento pessoal se faz necessário: como alguém que não fala chinês (nem moderno nem clássico), não é linguista nem sinólogo, pode atrever-se a ler-traduzir-intepretar um texto complexo como esse? Vários momentos marcaram minha relação com esse livro milenar e reforçaram minha confiança para empreender essa tarefa:

A esses momentos significativos foram acrescentando-se elementos que aumentaram minha confiança em poder, sim, enfrentar a tarefa de traduzir o texto chinês:

Em resumo, o livro pode ser enigmático e difícil, mas está disponível para qualquer um que se aproxime dele com sinceridade.

Por oportuno, queria destacar um ponto, muitas vezes desconsiderado, que afeta as traduções de textos, principalmente de culturas tão diferentes, citando Antoine Berman: [“A prova do estrangeiro”. Trad. Maria Emília Pereira Chanut; EDUSC, Bauru, SP, 2002, pág.16 e seg.]

“A própria visada 5 da tradução – abrir no nível da escrita certa relação com o Outro, fecundar o Próprio pela mediação do Estrangeiro – choca-se de frente com a estrutura etnocêntrica de qualquer cultura, ou essa espécie de narcisismo que faz com que toda sociedade deseje ser um Todo puro e não misturado. Na tradução, há alguma coisa da violência da mestiçagem. [...] Qualquer cultura desejaria ser suficiente em si mesma para, a partir dessa suficiência imaginária, ao mesmo tempo brilhar sobre as outras e apropriar-se de seu patrimônio. [...] a essência da tradução é ser abertura, diálogo, mestiçagem, descentralização. Ela é relação, ou não é nada”. 6

China e Ocidente estão interpenetrando-se e influindo um no outro em níveis nunca vistos antes. Nesta época de internet, onde a informação flui, literalmente, à velocidade da luz, o pensamento chinês deixou de ser uma chinoiserie folclórica e curiosa para mostrar seu potencial valor intrínseco para todos nós. Por isso, suas ideias nos trazem uma visão nova e consistente sobre os problemas humanos, só para descobrir que, por Compartilharmos com eles a condição humana, algumas delas já tinham sido expressadas no Ocidente, ainda que não tenham se constituído no núcleo central das nossas concepções. Assim, o objetivo de apresentar de forma misturada e eclética, principalmente na Primeira parte, Introdução teórica, textos chineses de diferentes tradições, e ocidentais, estes últimos filosóficos ou científicos, não tem só o sentido de destacar que “a filosofia chinesa tem também ecos inteligíveis para nós”, mas produzir um efeito equivalente aos textos do Yi Jing que, apesar de diversos, transmitem ao leitor um sentido básico e unitário 7. Portanto, influenciado pelo próprio Yi Jing, o autor pretendeu utilizar seu ‘Isto é assim como aquilo é assado’, que aponta e incita, com o intuito de melhor argumentar sobre sua eficácia em guiar-nos, com o fim último de convencer a você, leitor, dessa capacidade.

A esta altura se impõe uma pergunta: por que outra nova tradução-interpretação do Yi Jing, desta vez diretamente do chinês ao português? O que ela tem a oferecer que a distinga da grande quantidade já disponível no mercado? Considero que este trabalho tem os seguintes diferenciais:

Este trabalho apresenta vários níveis de aproximação, leitura e utilização:

Estamos, portanto, defronte a um texto enigmático, estrangeiro em mais de um sentido, mas do qual devemos aproximar-nos com toda modéstia porque foi utilizado, referenciado e venerado ao longo de três mil anos da civilização chinesa, abrindo-nos a ele para sermos fecundados e, em consequência, mudados por esse contato. A forma mais recomendável para consegui-lo, e aqui aparece novamente o pragmatismo chinês, é utilizando-o.

NOTAS

  1. Existem vários sistemas para transliterar os sons do chinês para línguas ocidentais. Em 1948, o governo chinês efetuou uma significativa modificação da língua falada e escrita no país (simplificando caracteres e padronizando a pronúncia no chamado putonghua, que é a língua oficial da República Popular da China) e, como parte dessa reestruturação, formalizou uma forma de transliterar os sons chineses para a escrita ocidental chamada pinyin, forma adotada também pela ONU e padrão que utilizaremos neste livro. Assim, o I Ching, como era conhecido, passou a ser grafado como Yi Jing.
  2. Na organização tradicional das bibliotecas chinesas os livros sobre o Yi Jing eram colocados no começo dos catálogos, como nós fazemos atualmente com a ‘Filosofia’.
  3. Desde Husserl, o Ocidente está prestando atenção ao ‘como’. Isso se reflete em inúmeros campos; na psicologia, por exemplo, o ‘por quê?’ freudiano está sendo desafiado pelo ‘como?’ gestáltico.
  4. Principais fontes consultadas para o texto em chinês:
    • http://www.chant.org/, Chinese ancient texts database, The Chinese University of Hong Kong.
    • http://ctext.org/, Chinese text project.
    • Xú Zìhông; 周 易 全 譯 zhouyi quanyi; ISBN 7-221-01959-2/B.33, 1991.
    • Liu Dajun and Lin Zhongjun; The I Ching: text and annotated translation; Shandong Friendship Publishing House, 1995.
    • Shaughnessy, Edward L.; I Ching, the classic of changes, the first english translation of the newly discovered second-century b.c. Mawangdui texts; Random House Inc, New York, 1997.
  5. Visada: “Na fenomenologia, ação em que a consciência intencional volta-se para um objeto”.
  6. Todos os textos com este formato, alinhados à direita, representam textos ou traduções de outros autores, cada um deles indicado em cada caso ou relacionado na Bibligrafia.
  7. Não devemos esquecer que, se bem que o discurso que estamos analisando seja chinês, nosso ouvido é ocidental e, portanto, estamos sempre misturando estes dois pontos de vista, já que objetividade nessa área é impossível.