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A FERRAMENTA

Terceira parte do livro Yi Jing: Uma ferramenta para o autoconhecimento

  1. Yi Jing Orienta
  2. Yi Jing: Uma ferramenta para o autoconhecimento
  3. A ferramenta

A CONSULTA

Como se ensina a usar um martelo? Pode-se mostrar como dar o golpe, como segurar o prego e, até, como evitar o grito quando o martelo bater num dedo, mas só a experiência vai-nos ensinar qual é a força do golpe adequada a cada prego e a cada parede. Da mesma forma, só a experiência pessoal no uso do Yi Jing vai-nos ensinar, realmente, como utilizá-lo eficientemente.

Já vimos que o Yi Jing apresenta-se como um modelo capaz de fazer um prognóstico da evolução das nossas circunstâncias a partir de um diagnóstico do momento atual delas. Mas, qual deve ser nossa parte? Como indicar sobre o que queremos ver num diagnóstico? Como iniciar o processo de utilização da ferramenta?

Consulta versus pergunta

Geralmente os tradutores e comentadores falam de colocar uma pergunta ao livro com o objetivo de obter uma resposta (alguns chegam até sugerir que a pergunta seja formulada com oito palavras: simbolicamente uma por cada trigrama), mas devemos ter em mente a diferença entre dois conceitos que são utilizados, geralmente, como sinônimos:

PERGUNTA:
Palavra ou frase com que se faz uma interrogação; questão que se submete a alguém de quem se espera que a resolva”.
CONSULTA:
Ato ou efeito de pedir a opinião de alguém mais experiente ou especialista sobre (algum assunto)”.

E sua consequência natural:

RESPOSTA:
Solução de questão”. Chave, consequência, corolário, decifração, dedução, entrelinhas, indução, inferência, resolução, resultado, terminação.
Conclusão:
Ensinamento que se extrai de um texto ou fato”.

Pode parecer que essa diferença seja somente um exercício de pontilhismo bizantino, mas tem o objetivo de salientar a atitude correta perante o livro e o que esperar dele: obviamente, não podemos contar com que ele resolva nossos problemas específicos que, certamente, exigem agir no mundo de forma concreta. Mas, sem dúvida, podemos pedir-lhe sua opinião já que ele sintetiza a experiência acumulada de inúmeras gerações de pensadores. Por isso nossa atitude deve ser a de consultar o livro como fonte de sabedoria e experiência para assim nortear nossa conduta futura.

Mas, um ponto muito importante deve se ter sempre presente: o Yi Jing, baseado na continuidade existente entre todos os processos, mostra as características das SITUAÇÕES nas quais estamos envolvidos, caracterizando o MOMENTO delas que estamos vivendo, e as apresenta com um conjunto de imagens e textos que funcionam como arquétipos que ecoam a constelação de fatos, personagens e motivações agindo na nossa situação vital. Dependendo da nossa acuidade pessoal, essas situações e esses momentos podem ser razoavelmente claros para nós, mas, infelizmente, muitas vezes eles ficam confusos, tanto pela nossa incapacidade de avaliá-los corretamente quanto pelo fato de que fatores que os estão influenciando ainda estão no estado de sementes, ou seja, ainda não amadureceram o suficiente para serem perceptíveis..., apesar de já estarem agindo e influenciando as situações e momentos.

Então, como poderíamos confiar na pergunta que formulamos ao livro? Ela está, irremediavelmente, contaminada por nossas (in)capacidades. Mas a resposta está integrada na lógica imanente que permeia todos os processos e ela inclui, necessariamente, TODOS os fatores participantes. É por isso que, uma vez obtida uma resposta à nossa consulta, devemos tentar nos ‘emancipar’ da pergunta e nos esforçar em entender essa resposta, esforçando-nos em enxergar como um todo a situação na qual estamos envolvidos, a qual está refletida, com todas suas nuanças, nessa resposta. Muitas vezes poderemos perceber que a pergunta que formulamos errou feio o alvo já que não pudemos ou não quisemos ver a situação como um todo. Em resumo, após a consulta frequentemente teremos que nos esforçar em responder, pela nossa vez, à pergunta: “Ao que será que o Yi Jing respondeu?” Isto é que vai nos obrigar a fazer uma reanálise, da qual obteremos novos insights da situação e do momento nos quais estamos envolvidos.

Isso posto, podemos continuar com o uso, muito natural, de consulta e pergunta como praticamente sinônimos.

Formulação da Consulta

Antes de realizar a consulta deve-se prestar certa atenção à pergunta a efetuar, já que uma pergunta mal formulada vai dificultar a interpretação da resposta.

A pergunta deve ser concisa e objetiva, indo ao âmago do assunto que nos preocupa, e deve eliminar questões dúbias (como seria, por exemplo, perguntar: “devo, ou não, fazer xxx?”, “devo fazer isto ou aquilo?”). Para tanto, é necessária uma avaliação geral da situação que motiva a consulta, precisando seus elementos. É muito conveniente escrever algumas linhas resumindo a situação antes de redigir a pergunta, com o objetivo de esclarecer as circunstâncias que rodeiam a consulta, o que pode evitar que mudemos inconscientemente o escopo dela na hora da interpretação.

Considerando a forte inclinação dos textos do livro na direção da ética e da correção das nossas ações, resultam mais fáceis de interpretar perguntas do tipo de: “é correto fazer isto?”, “é errado comprar aquilo?”, “devo aproximar-me de Fulano?”, “é conveniente ir para...?”, “é adequado contatar “x”...?

A ênfase que o Yi Jing coloca nas ações e suas consequências nos obriga a identificar muito bem qual é a ação principal sobre a que será aplicada a resposta; para tanto, é necessário identificar claramente qual é o verbo principal da pergunta. Por exemplo, no caso de: “É conveniente comunicar a fulano minha ida a xxx?”, podemos observar que existem duas ações: “comunicar” e “ir”. Então, o que fazer com uma resposta do tipo: “O exército retrocede. Nenhuma culpa”? Devo comunicar ou não? Ou será que não devo ir? Um rápido exame da pergunta mostra que a ação principal, objeto da dúvida, é “comunicar”, enquanto “ir” funciona simplesmente como um complemento e é sobre ‘comunicar’ que devem ser aplicados os conselhos obtidos. Uma formulação mais fácil de interpretar seria deixar um único verbo como, por ex.: “É conveniente comunicar a fulano meus planos sobre xxx?

É muito recomendável manter um registro de todas as consultas efetuadas. Isso será muito útil para relacionar diversas questões formuladas ao longo do tempo. O Yi Jing nos desvelará esse relacionamento repetindo hexagramas (indicando que a situação, no fundo, não mudou, só mudaram as nossas consultas) ou apresentando-os em alguma sequência esclarecedora (destacando a evolução histórica da situação).

Consultas pontuais

Claro, podemos efetuar consultas motivadas por situações específicas sobre as quais temos dúvidas, sejam elas sobre as origens da situação, sobre os vários fatores que influem nela ou sobre a atitude correta que devemos adotar para enfrentá-la. O que devemos evitar é tentar saber: “o que vai acontecer?”. Como já vimos, o funcionamento do Yi Jing não implica num destino prefixado ou numa entidade que tem certa predisposição a agir num dado sentido. Ele, simplesmente, vai desvendar-nos as tendências do momento, tanto nas que influem nas possíveis ações das personagens envolvidas quanto aquelas que atuam de forma imanente na situação que nos perturba.

As consultas podem seguir os formatos destacados no ponto anterior, mas devemos insistir na conveniência de manter um registro das respostas obtidas porque, com muita frequência, poderemos observar como essas respostas, que considerávamos pontuais e separadas, acabam mostrando um fio condutor, fato totalmente lógico se consideramos tratar-se de problemas que têm o mesmo sujeito: nós mesmos.

Consultas seriais

Entramos aqui no cerne da utilização do Yi Jing como ferramenta de autoconhecimento. Ele pode ser usado para efetuar uma série de consultas, encadeadas umas às outras, motivadas, cada uma delas, pela(s) resposta(s) obtida(s) à(s) consulta(s) anterior(es), mas todas vinculadas pelo mesmo processo macro que as une. A grande maioria dos autores opõe-se a este procedimento baseados no Julgamento do H04, Superando a ignorância, que diz:

Não sou eu quem procura o jovem ignorante, o jovem ignorante me procura.

À primeira consulta respondo; se faz duas ou três fica molesto; molestando, não respondo.

Infelizmente, o erro desses autores está na palavra 瀆 , que se bem significa ‘repetir’, como a maioria adota, também significa ‘molestar, cansativo, entediante, reiterativo’. Assim, o Julgamento do H04 refere-se mais propriamente à atitude do consulente do que à possibilidade de efetuar uma série de consultas encadeadas por um fio condutor. Não estamos aqui a recomendar a repetição da mesma consulta com formulação diferente, o que significaria que empregamos pouco esforço para sua interpretação, mas sim a efetuar uma sequência de consultas onde cada uma delas é consequência natural da compreensão do consulente sobre a consulta anterior. Essas consultas podem dar-se logo uma após a outra, ou seguidas por intervalos mais ou menos prolongados, mas sempre unidas pela vinculação entre elas.

Esse procedimento é particularmente útil caso o consulente se encontre num processo de autoanálise em andamento, seja com acompanhamento de um profissional ou sozinho. Poder-se-á observar a estreita correlação entre os dois processos e a iluminação mútua que se estabelece entre eles: um descobrimento terapêutico conduzindo a uma consulta, a resposta a uma consulta conduzindo a um avanço terapêutico.

Aqui, mais do que nunca, é necessário um registro cuidadoso das consultas e interpretações já que, não infrequentemente, com o andamento do processo novas interpretações e releituras disponibilizam-se para as consultas anteriores, resultado dos insights obtidos pelas novas consultas. Com risco de ser repetitivo, devemos salientar que às vezes uma resposta pode parecer inicialmente não corresponder totalmente à pergunta ou, até, ser totalmente confusa, só para se descobrir posteriormente, nessas releituras, que aquela resposta estava indicando a semente de uma situação que não era perceptível ao consulente no momento inicial, porque ainda estava nos seus primórdios, e que só depois de um tempo passou a ser visível e a fazer sentido, manifestando-se como uma tenra planta que nasce do chão. Além disso, neste caso, o Yi Jing geralmente responde ao que constitui o elo fundamental das consultas seriadas, mais do que às consultas pontuais que estão sendo formuladas. É como se o Yi Jing dissesse: “Tem outras coisas em andamento que você não está enxergando... e, portanto, sequer sabe perguntar sobre elas”.

Um alerta: o parágrafo anterior não deve servir de justificativa para uma apressada conclusão sobre uma determinada resposta, do tipo: “Ah! nesta resposta que não estou entendendo deve haver algo misterioso que não enxergo”, abandonando os esforços para interpretá-la. Cada consulta DEVE ser esgotada ao máximo de nossas capacidades, já que só o avanço posterior nas novas consultas é que vai abrir-nos à compreensão daquilo que antes não enxergávamos.

MÉTODOS DE CONSULTA

Ao longo da história do Yi Jing foram concebidos vários métodos para efetuar as consultas que possibilitam seu uso como ferramenta para o autodesenvolvimento. De todos eles os que têm maior interesse para nós são três, a ser explicados à continuação, mas antes devemos efetuar algumas definições que se aplicam independentemente do método utilizado.

Um hexagrama está formado por seis linhas sobrepostas nas quais podemos diferenciar a posição e o tipo de linha que a ocupa. ‘Posição’ refere-se à sequência de linhas, começando pela 1ª, inferior, e terminando com a 6ª, superior, enquanto ‘Tipo’ refere-se à qualidade da linha que ocupa cada posição, se é uma linha inteira, fechada, yang, ou se é uma linha partida, aberta, yin.

O processo de determinação da resposta consiste em identificar o tipo de linha que ocupará cada posição, procedimento que deverá ser repetido, sempre, seis vezes, já que a montagem do hexagrama é feita linha por linha, começando pela que ocupará a posição inferior (a 1ª) e terminando pela que ocupará a posição superior (a 6ª).

Independentemente do método escolhido, cada uma das repetições podem conduzir a quatro resultados possíveis, correspondendo, cada um, a um tipo diferente de linha:

Tradicionalmente as linhas são identificadas, dentro de cada hexagrama, pelo nome e posição. Assim temos, por exemplo: seis na primeira; sete na quarta; nove na terceira, sete na quinta, etc.

Neste livro temos adotado a seguinte convenção para referir-nos a hexagramas e linhas, sem mencionar o tipo de linha que ocupa cada posição:

Moedas

É um método rápido de consulta e o mais difundido no Ocidente. Nele, utilizam-se três moedas, atribuindo-se, arbitrariamente, os valores ‘2’ ou ‘3’ a cada uma das faces. Vamos utilizar o valor ‘2’ para cara e ‘3’ para coroa.

As moedas devem ser chacoalhadas e lançadas na mesa; os valores das faces visíveis devem ser somados e o resultado registrado como correspondente à primeira posição, inferior, do hexagrama. Os resultados possíveis, e os tipos de linhas que correspondem a cada um, são:

2 + 2 + 2 = 6——x——linha aberta, que fecha posteriormente (yin que vira yang)
2 + 2 + 3 = 7—————linha fechada (yang fixo)
2 + 3 + 3 = 8—— ——linha aberta (yin fixo)
3 + 3 + 3 = 9——0——linha fechada, que abre posteriormente (yang que vira yin)

O processo é repetido seis vezes, obtendo-se assim o hexagrama completo.

Analisando mais profundamente os resultados, vemos que as moedas podem cair da seguinte forma:

Moeda 1Moeda 2Moeda 3Soma
2226
2237
2327
2338
3227
3238
3328
3339

Como vemos, temos oito resultados diferentes, dos quais uma vez pode sair ‘6’, outra vez pode sair ‘9’, três vezes podem resultar em ‘7’ e as outras três em ‘8’. Dito de outra forma:

Como tanto ‘6’ e ‘8’ equivalem a linhas abertas e ‘7’ e ‘9’ a linhas fechadas, temos:

Como tanto ‘6’ e ‘9’ correspondem a linhas mutáveis e ‘7’ e ‘8’ a linhas fixas, temos:

Resumindo:

Varetas

É o método de consulta tradicional chinês que se remonta à dinastia Zhou (1045-256 A.C.) e ainda hoje pode observar-se, na porta dos templos chineses, a presença de “leitores de fortuna” que utilizam este método. Ele está consagrado pela sua antiguidade e consiste numa manipulação complexa de 50 varetas, que são divididas aleatoriamente em grupos seguindo um processo de certa complicação. Uma explicação detalhada do método pode ser encontrada em Wilhelm, pág.276.

O procedimento com as moedas é normalmente apresentado como equivalente ao de varetas, mas não é assim. Por um lado, as varetas se constituem num procedimento, por assim dizer, mais lúdico e estético do que o outro. Não somente as varetas são mais elegantes do que as moedas, mas devem ser manuseadas num processo que leva certo tempo, facilitando uma maior ‘integração’ entre o estado espiritual do consulente e a posterior interpretação. Por outro lado, existe uma diferença significativa entre os dois métodos no que concerne às probabilidades de obtenção de linhas mutáveis, o que apresenta conotações teóricas interessantes. Wilhelm chega a mencionar essa diferença, mas não se aprofunda nela nem dela extrai nenhuma consequência. 2

O cálculo probabilístico para o método das varetas é relativamente complexo, mas chega-se ao seguinte resultado:

Portanto:

Até aqui, os resultados para linhas abertas e fechadas e para mutáveis e fixas são idênticos aos obtidos com as moedas. A diferença aparece quando verificamos que para obter um ‘6’ a probabilidade é 1/16 enquanto, para obter um ‘9’, é de 3/16, ou seja, a probabilidade de obter uma linha fechada que abre e três vezes maior do que uma linha aberta que fecha, enquanto que utilizando moedas os dois tipos de linhas têm a mesma probabilidade: 1/8. 3

Essa diferença tem profundas implicações, já que influi tanto no tipo de linhas móveis que podem ser obtidas numa consulta, quanto nas próprias bases conceituais do livro, qual seja, A ENERGIA YANG MUDA TRÊS VEZES MAIS FACILMENTE DO QUE A ENERGIA YIN. Ou seja, a ‘iniciativa’ transforma-se com mais facilidade na ‘conformidade’ do que o contrário. Noutras palavras, o yang é mais ‘criativo’ e o yin mais ‘estruturado’; daí que o método das varetas reflita com mais acuidade as imagens tradicionais do yang como ‘movimento’, ‘agitação’ ou ‘impulso’ e o yin como ‘solidificação’, ‘conformidade’ ou ‘repouso’.

Analisando as linhas fixas podemos verificar também que um ‘8’ é 40% mais provável do que um ‘7’ (7 vezes no primeiro caso e 5 vezes no segundo). Isso significa que a conformidade tem uma tendência maior a ficar nisso mesmo do que a iniciativa a se manter ativa.

Baralho

É possível reunir num método de consulta tanto o padrão probabilístico quanto o manuseio lúdico do método das varetas com a simplicidade das moedas. Para isso utiliza-se parte de um baralho (32 cartas ao todo), atribuindo-se, arbitrariamente, um naipe a cada tipo de linha. A quantidade de cartas de cada naipe dependerá do tipo de linha correspondente conforme, por exemplo, à seguinte tabela:

Como num baralho existem 13 cartas por naipe, acrescenta-se um curinga que é considerado como pertencente ao naipe de espadas em nosso exemplo acima.

Neste método, o consulente embaralha as cartas, sem olhar a frente das mesmas. Quando achar apropriado, vira uma das cartas, registrando o tipo de linha correspondente ao naipe extraído e atribuindo-o à primeira linha. Retornando a carta ao baralho, reinicia o processo, repetindo-o seis vezes. Assim, o manuseio das cartas é equivalente ao manuseio das varetas e o consulente pode adequar a velocidade da consulta a seu ‘tempo’ interno.

Verifica-se que a facilidade de manuseio é a mesma do que com as moedas e as probabilidades são as mesmas do que com as varetas já que:

Isso significa que o método preserva a maior tendência das linhas fechadas em abrir (‘9’) do que a das linhas abertas em fechar (‘6’). Quer dizer, preserva a diferença entre as tendências a mudar do yang e do yin, demonstrando a maior tendência à estabilidade da conformidade (‘8’), quando comparada com a iniciativa (‘7’).

Ritual

Não existe nenhuma divindade a ser invocada no momento da consulta, divindade que ficaria agradecida ou satisfeita se o consulente seguisse certo ritual. Também o ritual não tem nenhum efeito ‘mágico’ nem influencia a resposta. Mas, indubitavelmente, quem vai se sentir melhor seguindo certo ritual é o próprio consulente.

O ritual tem como função marcar a importância da consulta e serve para destacar a singularidade do momento, no qual nos predispomos a enfrentar um problema que nos preocupa. Por outro lado, o ritual ajuda a desencorajar consultas superficiais, carentes de uma motivação sólida.

Outra função importante do ritual é a de contribuir para desvencilhar-nos das emoções com que iniciamos a consulta: expectativas, preferências, desejos ou ideias preconcebidas sobre o resultado da mesma. Isso permitirá abrirmo-nos às emoções produzidas pela resposta, tanto pela visualização das suas imagens quanto pela leitura dos seus textos que, como foi mencionado na Primeira Parte: Fundamentação Teórica, se correspondem com os processos com os que lidamos e com suas tendências imanentes. Assim, teremos facilitada a interpretação da resposta e poderemos escolher com mais propriedade a conduta adequada ao momento.

O ritual a seguir é um assunto do foro íntimo de cada um de nos e vai se estruturando na medida que aumenta a familiaridade com o livro e com o mecanismo de obtenção da resposta.

Algumas sugestões:

INTERPRETAÇÃO DA RESPOSTA

Independentemente do método utilizado na consulta será obtido um conjunto de seis linhas, fixas ou mutáveis, abertas ou fechadas. Elas constituem o hexagrama que representa a resposta à consulta, ou ‘primeiro hexagrama’ ou ‘hexagrama base’, e corresponde ao ‘momento atual’ da situação, ou seja, representa o diagnóstico deste momento. 4

Devemos observar que nem sempre podemos avaliar adequadamente este ‘momento presente’, já que o Yi Jing pode salientar aquilo que no momento está na condição de semente e, portanto, ainda fora da nossa percepção, apesar da sua evolução já ter sido iniciada em forma concreta. O Yi Jing pode também mostrar nesse hexagrama base as condições que levaram até a situação presente, ou seja, destacar que o diagnóstico é o resultado de certo processo histórico.

No caso de obter linhas mutáveis (valores ‘6’ ou ‘9’), elas correspondem às condições da evolução da situação atual e nos levam a um ‘segundo hexagrama’, que representa a situação para a qual PODERIA evoluir a situação atual... dependendo da ação do consulente.

Imaginemos que, por exemplo, a sequência obtida foi ‘7’, ‘8’, ‘6’, ‘7’, ‘7’, ‘9’. A resposta é então o H25, “Agindo sem se esforçar”, chamado hexagrama base, o que, dependendo da forma pela qual o consulente reaja aos conselhos da terceira e sexta linhas, poderia levá-lo ao H49, “Renovando radicalmente”, chamado ‘segundo hexagrama’ ou ‘hexagrama mudado’.

SequênciaHexagramas
BaseMudado
'9' ——0——
'7' —————
'7' —————
'6' ——x——
'8' —— ——
'7' —————
—————
—————
—————
—— ——
—— ——
—————
—— ——
—————
—————
—————
—— ——
—————
 H25H49

Para interpretar a resposta devem ser lidos os seguintes textos e comentários que os acompanham, de preferência na ordem apresentada:

  1. H25: ‘Nome’, ‘Julgamento’, ‘Explicação do Julgamento’, ‘Imagem’, ‘Sequência’, ‘Hexagramas misturados’ e ‘Descrição do momento’.
  2. H253 e H256.
  3. H49: ‘Nome’, ‘Julgamento’, ‘Explicação do Julgamento’, ‘Imagem’, ‘Sequência’, ‘Hexagramas misturados’ e ‘Descrição do momento’.

Os textos 1 diagnosticam, em geral, o momento presente; os 2, as possíveis alternativas de ação ou as personagens envolvidas na situação; e os 3, o possível resultado dessas ações, tudo com relação ao assunto consultado.

É muito difícil generalizar uma metodologia para a interpretação dos hexagramas, considerando que existem muitas exceções, variações, casos específicos, etc., com as quais só a experiência pode nos ensinar a lidar. Mas, é fundamental enfatizar que o consulente não pode ficar totalmente passivo, no aguardo de ‘um sinal dos céus’. Ele deve trabalhar a resposta, aplicando a inter-relação entre textos e imagens à constelação de fatos concretos que envolvem o objeto da sua consulta. Nem os textos do livro, com seu número limitado de palavras, nem as também limitadas imagens disponíveis no livro podem descrever um número potencialmente infinito de situações. É o consulente que, influenciado por esses textos e imagens, acaba compreendendo as nuanças da situação que o está preocupando.

Em geral, podemos destacar os seguintes elementos na interpretação e a ordem em que devem ser considerados.

DOS HEXAGRAMAS

Nome do hexagrama

Cada hexagrama representa uma situação, uma constelação de fatos e personagens. Enfim, podemos dizer que cada hexagrama conta uma história. Esta história está claramente descrita pelo nome do mesmo (ex.: H56 “Viajando pelo exílio”, H51 “Assustado por um abalo”). Para enfatizar que cada história nada mais é do que uma recomendação sobre a ação adequada às circunstâncias presentes, traduzimos seus nomes como uma forma verbal expressa no gerúndio ou particípio passado, complementada por um adjetivo, advérbio ou substantivo.

É muito importante que, antes de continuar, estabeleçamos uma relação direta entre o nome do hexagrama obtido e a nossa consulta. A interpretação da resposta depende, e muito, desta vinculação inicial.

Trigramas constituintes

Os hexagramas estão divididos em grupos de três linhas, chamados trigramas, que são muito importantes na estrutura simbólica de cada hexagrama. As linhas devem ser contadas de baixo para cima e formam os seguintes trigramas:

1ª , 2ª , 3ª = trigrama constituinte inferior

4ª , 5ª , 6ª = trigrama constituinte superior

As duas imagens fornecidas pelos trigramas completam ou ilustram a ideia transmitida pelo nome (o texto IMAGEM se ocupa destes trigramas e da sua vinculação):

No H56, “Viajando pelo exílio”, temos fogo (trigrama superior) espalhando-se no topo de uma montanha (trigrama inferior), queimando a vegetação e pulando pelos arbustos secos sem se deter; essa imagem caracteriza uma situação que não é precisamente uma viagem de prazer, mas algo muito mais dramático, como estar exilado, vagando de um lado a outro sem se fixar.

No H51, “Assustado por um abalo”, temos um trovão repetido como imagem de um momento no qual os problemas se avolumam, provocando medo.

Mas, como tudo no Yi Jing, isso não constitui uma regra, já que alguns hexagramas obtêm seu significado da sua forma total, mais do que dos trigramas constituintes:

O H28, “Excedendo-se sendo grande”, representa uma grande viga apoiada em suportes fracos;

O H50, “Transformando-se profundamente”, representa um caldeirão onde os alimentos crus são transformados em alimentos cozidos.

O simbolismo de cada trigrama individual está analisado no apêndice Shuo Gua, “Explicação dos trigramas”, que aparece em Wilhelm, pág.203.

Textos do Julgamento e da Explicação

O texto do Julgamento coloca elementos básicos de conduta e aporta imagens adicionais à história de cada hexagrama. Como disse Wang Bi, citado na Fundamentação Teórica:

“Quando citamos o nome de um hexagrama, em seu significado encontramos o princípio controlador, e quando lemos as palavras do Julgamento, então teremos mais da metade das ideias envolvidas”.

Assim, por exemplo, no H45, “Agrupando pelo exemplo”, os trigramas nos mostram um banhado na planície (Lago sobre Terra) que atrai inúmeros animais das mais variadas espécies, o que gera a ideia da reunião de um grupo de homens de todo tipo. O Julgamento diz: “Congregando se exerce influência. Somente um grande rei terá um templo ancestral, é conveniente ver o grande homem influenciando, é conveniente insistir. Usar um grande animal para o sacrifício é benéfico, é conveniente ter aonde ir”. Aqui aparecem imagens adicionais que se aplicam à situação:

  1. trata-se de um momento onde se pode exercer uma grande influência sobre os outros;
  2. é necessária a figura poderosa de um homem que exerça a função de aglutinação e insista em conseguir a união das pessoas; esse homem vai reuni-los não pela força física mas pela força de seus princípios morais;
  3. a ação desse homem deve ser visível e clara, como ao sacrificar um grande animal;
  4. é necessário ter objetivos definidos para influenciar o grupo.

A Explicação do Julgamento esclarece as palavras do Julgamento a partir de elementos ‘técnicos’ tais como: atributos dos trigramas constituintes, definição de palavras do Julgamento, características das linhas mais importantes e da relação entre elas e, finalmente, conceitos próprios da filosofia chinesa.

Hexagramas relacionados

Existem hexagramas que têm relação com o hexagrama que está sendo considerado. Estes hexagramas podem ser vistos como auxiliares para a compreensão da história representada pelo hexagrama básico, mas seus textos não devem ser incluídos na interpretação de uma consulta.

Hexagrama nuclear, formado pelos trigramas nucleares (2ª, 3ª, 4ª linhas = trigrama nuclear inferior e 3ª, 4ª, 5ª linhas = trigrama nuclear superior), representa a situação que está no âmago da situação presente. Tomando como exemplo o H45, “Agrupando pelo exemplo”, o hexagrama nuclear é o H53, “Desenvolvendo-se gradualmente”; isso nos diz que a congregação de homens ao redor de uma figura central e moralmente forte traz implícita o desenvolvimento gradativo daquele grupo.

Hexagrama antagônico é o que se forma quando todas as linhas mudam, indicando uma situação completamente contrária àquela que está sendo considerada. Assim, o H06, “Disputando inutilmente”, tem como antagônico o H36, “Escondendo sua luz”, o que indica que nada mais inadequado que se envolver numa disputa sem ter claras as razões ou possíveis desenvolvimentos da mesma ou que, ao contrário, não ter clara nossa situação vai nos envolver em disputas e conflitos.

Hexagrama oposto é aquele formado virando de ‘ponta-cabeça’ o hexagrama que está sendo considerado e representa outro ponto de vista, complementar, da situação que está sendo focalizada. Assim, o H40, “Liberando tensões”, tem como oposto o H39, “Obstruído pelas dificuldades”, enfatizando que liberação e obstrução são conceitos complementares que se apresentam praticamente ao mesmo tempo: por um lado nos liberamos de um obstáculo e pelo outro um obstáculo nos aprisiona. Geralmente os hexagramas opostos seguem-se um ao outro.

Texto da Imagem

Este texto faz a analogia entre os dois trigramas constituintes e a conduta que se deveria esperar, nas circunstâncias descritas pelo hexagrama, de um homem sábio, de um soberano ideal ou de um grande homem.

Assim, no H04, “Superando a ignorância”, a Imagem diz: “Na base da montanha jorra uma fonte [Montanha e Água], Superando ignorância. Assim, o homem sábio, porque age frutiferamente, desenvolve seu potencial”. Esse texto nos mostra um sábio que, pela força de suas ações, e não pelas suas palavras, desenvolve o potencial dos seus discípulos.

No H05, “Esperando sem inquietar-se”, a Imagem nos dá um valioso conselho, dizendo: “Nuvens se elevam até o céu [Água e Céu], Esperando sem inquietar-se. Assim, o homem sábio bebe, come, festeja e se diverte”. Quando nuvens se aproximam anunciando uma tormenta, o melhor é não ficar ligado no futuro e viver aquilo que o momento presente tem para nos oferecer de bom.

Textos: Sequência e Hexagramas Misturados

São complementos para a compreensão da história de cada hexagrama. A Sequência tenta explicar a ordem na qual os hexagramas são apresentados e o texto dos Hexagramas Misturados faz comparações concisas entre alguns deles, em geral os opostos.

Comentários dos tradutores

Devem ser lidos em ULTIMO lugar e só após ter aplicado o MÁXIMO esforço na leitura e compreensão das imagens e textos originais. Isso deve-se ao fato que cada um desses tradutores ou comentaristas introduz SEU ponto de vista, SUA interpretação dos textos, símbolos adicionais da SUA preferência, etc. Claramente são de muita ajuda, principalmente para iniciantes no Yi Jing, mas não deixam de ser uma imposição, nem sempre percebida, dos pontos de vista do tradutor (lembremos a expressão italiana ‘tradutore, traditore’). Exemplos de incompreensão são o de Legge que, na sua Introdução de 1882 (pág.359), disse:

“[...] É claro que toda adivinhação é vã e que o método do Yi não é menos absurdo que qualquer outro. Os próprios chineses o abandonaram em todos os círculos por cima dos charlatões profissionais e ainda assim seus eruditos continuam a sustentar a sabedoria e ciência insondável dos Anexos ao Texto!”.

Ou seja, ele, com sua mente racionalista própria do século XIX, não acreditava no aspecto oracular do livro, mas reconhecia, surpreso, que os chineses pudessem valorar, e muito, seu lado sapiencial. Essa atitude incrédula acabou refletindo-se em vários dos seus comentários aos textos.

Wilhelm, a despeito de seu sucesso em transmitir-nos a forma de pensar dos chineses, escorrega várias vezes na sua formação de missionário cristão como, por exemplo, no seu comentário da Imagem do H51 (pág. 159):

“O choque provocado pelo contínuo trovejar causa medo e temor. O homem superior permanece reverente diante da manifestação de Deus, corrige sua vida e examina seu coração, para que não abrigue qualquer secreta oposição à vontade de Deus”.

O conceito de Deus, Criador de tudo o que há e capaz de intervir nos assuntos humanos, não faz parte do pensamento chinês. O conceito de Deus nada tem a ver com o conceito de Céu e interfere com o princípio básico do Yi Jing de que as coisas e acontecimentos se desenvolvem com uma naturalidade e uma lógica imanentes a eles próprios e não por razões transcendentes, ou seja, não há nada fora dos fenômenos em si mesmos.

Esses problemas de interpretação não têm acontecido somente com comentaristas ocidentais, mas também com os próprios chineses:

DAS LINHAS

No caso de estarmos estudando um hexagrama devemos considerar as características e Textos de todas as linhas. A elas atribuímos os valores 6 ou 9 porque, para a finalidade de estudo, consideraremos a possibilidade de mudança de todas e de cada uma das linhas. Vistas sob esta ótica, as linhas representam fases ou estágios da evolução da história do hexagrama em consideração.

No caso de estarmos interpretando uma consulta devemos nos limitar às linhas mutáveis obtidas, ou seja, aquelas que NÃO sejam 8 ou 7. Estas últimas devem ser utilizadas para ‘montar’ o hexagrama, mas, não sendo mutáveis, não se consideram na resposta (exceto como complemento na interpretação das linhas mutáveis, em função da sua inter-relação). As linhas mutáveis obtidas podem ter diversos significados, dependendo da consulta efetuada, já que podem representar:

Natureza da linha

As linhas podem ser yin ou yang. O tipo de linha indica a dinâmica ou natureza dessa linha, por exemplo: sendo yang (9 ou 7) indica iniciativa, impulso, rigidez, enquanto sendo yin (6 ou 8) indica conformidade, aceitação, flexibilidade. Essas naturezas serão consideradas adequadas ou não, dependendo da posição que as linhas ocupem e da tônica geral de cada hexagrama em particular.

Característica da posição

Cada hexagrama está formado por seis posições, que podem ser yin ou yang, centrais ou não. Elas se nomeiam de baixo para cima, desde a 1ª ou começo, até a 6ª ou topo. São posições yang: a 1ª, 3ª e 5ª, e yin: a 2ª, 4ª e 6ª.

Cada posição indica o que as circunstâncias esperam do sujeito dessa posição: iniciativa etc., no caso de yang, aceitação etc., no caso de yin. Essas expectativas poderão, ou não, serem atendidas, em função das naturezas das linhas que efetivamente ocupem essas posições. Assim, um 6 na 2ª indica uma concordância entre a natureza e as circunstâncias dessa linha, e por isso é chamada de correta, enquanto um 6 na 5ª indica uma inadequação, daí ser chamada de incorreta.

As posições 2ª e 5ª são chamadas de centrais, devido ao seu lugar nos trigramas constituintes. Elas são posições nas quais predomina, em geral, certo equilíbrio e harmonia com relação às circunstâncias, o que permite compensar excessos de iniciativa ou de conformidade.

Relacionamentos entre as linhas

Existem três tipos de relacionamento entre as linhas: correspondência, vizinhança e ressonância.

Existe correspondência entre as linhas dos trigramas inferior e superior: a 1ª com a 4ª, a 2ª com a 5ª e a 3ª com a 6ª, mas somente no caso de estarem ocupadas por linhas de naturezas diferentes. Assim um 6 na 2ª está em correspondência com um ‘7’ ou ‘9’ na 5ª, mas não com um ‘6’ ou ‘8’ na 5ª. No caso de correspondência as funções das linhas se complementam, reforçam e ajudam, dentro do significado geral de cada hexagrama.

Em alguns poucos hexagramas existe entre essas posições uma relação de ressonância, na qual as funções das linhas do mesmo tipo se amplificam uma à outra. É o caso de um ‘9’ na 3ª com um ‘7’ ou ‘9’ na 6ª. Trata-se de uma exceção que é salientada quando acontece.

Em alguns hexagramas resultam importantes as relações de vizinhança, que se dão entre linhas contíguas de tipo diferente: um ‘6’ na 3ª com um ‘7’ ou ‘9’ na 4ª. Esta vizinhança é legítima quando a linha yang está por cima da linha yin e ilegítima no caso contrário. A vizinhança significa uma interferência de uma linha nos assuntos da outra, sendo de ajuda no caso de ser vizinhança legítima ou de perturbação no caso de ilegítima.

Algumas posições recebem representações tradicionais: a 1ª é imatura; a 2ª um funcionário; a 3ª é ‘hiperativa’; a 4ª, um ministro; a 5ª, um imperador; a 6ª, um sábio. Mas essas imagens, se bem que ajudem na interpretação, não devem ser tomadas ao pé da letra, já que dependem muito da história que o hexagrama em consideração esteja contando.

As inter-relações entre as linhas ajudam significativamente na compreensão do contexto onde se desenvolve a situação do consulente. Por exemplo, imaginemos que ele tivesse obtido a linha H413, cujo texto, um tanto obscuro em si mesmo, diz: “Quando três pessoas viajam, geralmente perde-se uma; quando uma pessoa viaja, geralmente ganha um companheiro”. O consulente deve perguntar-se: quem, no meu caso, representa as 4ª e 5ª linhas, das que tenho que separar-me? (Observar que, graficamente, as três linhas formam um conjunto.) Quais são as pessoas do meu entorno que são representadas como um ministro fraco (a 4ª yin) ou como um soberano também fraco (a 5ª yin)? Qual das pessoas envolvidas na minha situação representa o sábio da 6ª a quem tenho que ajudar (em função da relação de correspondência)?

Textos da linha

São os Textos que permitem identificar o significado de cada linha e o papel que desempenha dentro da situação descrita pelo hexagrama. Eles indicam também a melhor conduta a tomar dentro da situação, destacam as personagens principais do assunto sob consulta ou mostram uma sequência temporal de fatos vinculados à consulta, etc.

Textos da linha derivada

Quando uma única linha muda de tipo, transforma o hexagrama base num outro, chamado ‘hexagrama derivado’. Chamamos linha derivada de uma linha do hexagrama base àquela linha que ocupa a mesma posição no hexagrama derivado. Este hexagrama derivado não deve ser confundido com o chamado “segundo hexagrama”, formado quando todas as linhas mutáveis obtidas numa consulta são transformadas 5

Tomemos por exemplo o H40, Liberando tensões, cujas seis linhas derivadas são:

OriginalLinha que muda de tipo
䷿
H40H541H162H323H074H475H646

O Texto da linha derivada não faz parte da consulta, mas ilumina o significado da linha correspondente no hexagrama base. A relação entre o texto base e o da linha derivada é extremamente forte, mas, paradoxal e surpreendentemente, esse fato não foi enfatizado pelos intérpretes do Yi Jing, sejam eles chineses ou ocidentais, clássicos ou modernos. Neste trabalho, uma grande atenção foi aplicada à relação entre o texto da linha mutável do hexagrama base com a situação descrita pelo hexagrama derivado e o texto da linha derivada. O resultado é que linhas normalmente difíceis de interpretar acabam tendo seu sentido esclarecido com facilidade.

NOTAS

  1. Para a relação entre yang e iniciativa e entre yin e conformidade vide H01 e H02: yin e yang na seção Termos Técnicos do Glossário.
  2. Wilhelm, pág.277, diz: “Como se pode verificar, é mais fácil obter o número 5 que o número 9”, mas não faz nada com essa informação. Obs.: ‘5’ e ‘9’ não devem ser confundidos com os tipos de linhas já vistos, já que se referem a particularidades do método das varetas que não serão explicitadas aqui.
  3. Helmut Wilhelm, no “O significado do Yi Jing” (pág.23), menciona esta diferença de probabilidades, mas também não se aprofunda nem no significado nem nas consequências dessa diferença.
  4. Algumas indicações desta seção podem parecer obscuras. Neste caso recomendamos a leitura da Fundamentação Teórica para esclarecê-las.
  5. O hexagrama derivado e o segundo hexagrama só coincidem quando na consulta é obtida uma única linha mutável.